Saudações sambístas
António Guerreiro 2010
Março Abril Maio 2009
Junho Julho Dezembro1. Pergunta de Francisco Fernandes (Iguatu - CE) - Com quantos ritmistas a bateria do Império Serrano vai se apresentar? R. A bateria do Império Serrano no ano de 2004 irá apresentar 240 ritmistas. Uma redução que foi benéfica para as outras baterias também, não só a do Império, como todas as outras agremiações, porque a acústica na Marquês de Sapucaí não está dando um suporte como antigamente. O Império Serrano vinha antigamente com 350, 400 ritmistas e isto afetava a parte rítmica da bateria e a cadência. Então, com a redução, nós fizemos uma parte mais compacta: o que eram 20 primeiras[surdos de marcação], 20 segundas, caímos para 12 primeiras, 12 segundas e 18 terceiras. Então, isso facilitou mais a ouvir o carro de som. Hoje, devido à parede concretada da Marquês de Sapucaí, que não é mais de madeira, é de concreto, aquele eco ali atrapalha, então quanto menos ritmistas tiver, pra nós, diretores de bateria, é melhor. Hoje, para trafegar na Avenida o fundamental é 240, 250 até vale, mas este ano a gente vem com 240. 2. Pergunta de Francisco Fernandes (Iguatu - CE) - A Tabajara do Samba tem ultimamente usado uma coreografia para fazer o recuo antes de entrar no box. Esse tipo de coreografia vai ser repetido em 2004? R. Não. Essa coreografia, que resultou no Estandarte de Ouro em 2002, com o falecido Mestre Macarrão, amigo nosso que deixou saudade, criou um regime militar na bateria. E, ano passado, nós exercemos essa função de mestre de Bateria e promovemos a mesma evolução do ano anterior, mas com um grau de dificuldade maior. Só que teve problemas que a gente não quer falar. Então, por motivos de segurança, por motivos de necessidade de ganhar a nota máxima, nós passaremos mais profissionalmente na Avenida, mais tecnicamente. Mais cadência, mais suingue, sabe? O que o Império tem de melhor na bateria. Nenhuma bateria hoje tem este suingue. A gente tem que exaltar e fortalecer esta parte. Então, a evolução não vai ser realizada este ano, infelizmente para alguns e felizmente pra gente também. 3. Pergunta de Maninho (Porto Alegre - RS) - Na minha modesta opinião, creio que toda boa bateria é fruto de organização, disciplina, ensaio e principalmente critérios na hora de avaliar um ritmista... Pergunto a você: como é a divisão dos setores dentro da bateria do Império Serrano, ou seja, quantos diretores o auxiliam e quais os critérios que você utiliza para avaliar um componente? R. De uns anos pra cá, com a modernização das baterias, com os diretores de bateria sendo mais estudiosos, mais técnicos, hoje todas as baterias, inclusive a do Império Serrano, têm uma prioridade: disciplina, que nós utilizamos aqui para com os ritmistas; educação, que a gente fala que a bateria do Império hoje é uma família, hoje os ritmistas se dão, se conhecem, a gente faz tudo pra melhorar este tipo de cobrança que é a disciplina, a gente cede pra depois cobrar. Então, a bateria do Império tem um critério de avaliação que hoje nós retomamos de novo, depois de um longo tempo. Eu comecei assim, entrei em 81 assim... com o Mestre Natalino, com Tuninho, Birão... essas pessoas que me marcaram muito... Sílvio também, Birinha Cinzento... Então, eu tive o prazer de aprender isto. E hoje, com a idéia de retomar este trabalho, a gente está avaliando, fazendo uma oficina de reciclagem: tira dos naipes aquele que sobressai melhor e depois de dois meses de ensaio nós galgamos ele à medida de fantasia e à carteirinha definitiva de ritmista. Hoje tenho mais cinco diretores de bateria comigo, são de confiança, são músicos, são estudiosos. Tenho o Dinho, tenho o André, tenho o Gilmar e tenho o Felipe. Esses rapazes são Império mesmo. Estão aqui já há um bom tempinho, tem uns que tem cinco, outros que tem dez, outros que tem oito anos, mas são pessoas que você pode confiar. Hoje nosso tarol aqui no Império a qualidade melhorou muito, devido a este pessoal que nós colocamos, a esse trabalho que fazemos aqui, a partir de 2002. Isso é feito no tamborim, no agogô, que é nossa cara, nossa alma, o agogô de quatro bocas, criado pelo Mestre Edgar do Agogô. Essa é a nossa diretriz: colocar simplicidade, colocar a batida do Império Serrano na cabeça de cada ritmista, mas com carinho, nada de agressividade, praticamente conversando com eles: "Ó! Tá errado, é... vamos lá pra sala. Vamos pegar a batida com mais tranqüilidade, a reciclagem está lá em cima, pra vocês pegarem com mais calma." Quem não conseguir conciliar com este ritmo hoje no Império... São noventa taróis, são 44 surdos, são quarenta tamborins, quarenta agogôs, 16 chocalhos, 16 cuícas... Você tem ainda na mão dois pratos, que eu estou voltando de novo com os pratos no Império Serrano, do falecido Calixto, do falecido Seu Eugênio, nós estamos resgatando este dois, entendeu? Então, esse trabalho está sendo com carinho: avaliação de cada diretor de bateria, assina a ficha, autoriza a medida, aí eu vou de novo, reavalio de novo e autorizo de novo. Esse é o nosso critério aqui. E divisão direitinho de cada naipe: você toca tarol é tarol; surdo: primeira, segunda e terceira é primeira, segunda e terceira; tamborim é tamborim; agogô é agogô e assim conseqüentemente a gente vai mantendo este padrão de organização que foi criado de novo, de 2002 pra cá. A gente estava parado no tempo. 4. Pergunta de Maninho (Porto Alegre - RS) - Diversas pesquisas apontam a bateria do Império como a melhor, coisa com que também concordo plenamente. Como você sente essa responsabilidade ao saber que está no comando da melhor? E teve algum momento difícil, que você precisou daquele apoio extra da família ou de amigos? R. Momento difícil sempre existiu, né? Assim que nós chegamos aqui em 99, na gestão D. Neide, que é uma pessoa guerreira, batalhadora, ela nos deu essa oportunidade de fazer uma reformulação na bateria, que pra nós, imperianos de coração, era necessidade imediata. A gente pegou ritmistas agressivos, ritmistas rebeldes, muito difíceis de lidar. Então essa foi a maior tarefa que nós tivemos aqui, tanto eu como o falecido Macarrão, como o André, como o Dinho, como os demais companheiros que estão aqui e outros que já não estão mais, infelizmente. Esse foi o nosso pior momento na bateria. A D. Neide, como presidente da escola, foi muito forte insistindo na gente, em manter a gente, que foi muito criticado. Esse foi o pior momento, iniciar o trabalho de reformulação. A gente hoje tira ritmistas pra fazer show em algum lugar, com satisfação. Tem ritmista nosso dando aula em Brasília, ritmistas dando aula no Rio Grande do Sul... O Téo tá lá em Brasília, que nós encaminhamos pra lá, tem outros também que estão dando aula aqui na Serrinha, como o André, então a gente está satisfeito com isto. Isto aí nós tiramos da dificuldade que nós tivemos com essa lapidação que nós fizemos na bateria para tirar estes ritmistas de qualidade. Hoje a gente está satisfeito mas foi muito difícil. A parte mais difícil foi essa: lidar com o pessoal que não queria, os rebeldes, sabe que tem vários tipos de classes sociais, tem fulano que já foi, que é, que pensa em ser, então esta é a dificuldade que nós passamos aqui. Hoje a bateria do Império está orgulhosa de ter a rapaziada que tem na mão. Um pessoal muito disciplinado, muito carinhoso, muito família, além do mais, acima de tudo, profissional no ritmo que faz, a gente pede pra fazer e hoje eles cumprem direitinho à risca. 5. Pergunta de Maninho (Porto Alegre - RS) - A bateria é considerada o coração da escola, tanto é que, se ela errar, dependendo do grau do erro, pode comprometer o desfile da escola em harmonia, evolução e conjunto... Portanto, é um quesito fundamental dentro do contexto. Pergunto a você: qual o momento mais perigoso de um desfile? A arrancada, a retomada da cadência? A entrada e saída do box? Em todo tempo que tens de bateria, você lembra se alguma vez já aconteceu algum acidente dentro de um desfile e qual o recurso que foi utilizado? R. Acidente já presenciei várias vezes, porque estou este tempo todo na bateria, 22 anos tocando, tocando primeira, segunda, terceira, fazendo show na França, uma baita experiência em termos de bateria de Império Serrano e de outras mais. Toquei com o Mestre Marçal, toquei com vários mestres de bateria famosos, então a gente sabe que o que nós passamos em 98, foi o pior, (risos) é... foi o pior. Em 98, sob o comando do Mestre Sílvio, a bateria do Império Serrano estava em um bom momento até a entrada do segundo box. Ali começou a divisão da bateria. A bateria se dividiu em duas: metade estava indo embora para a Apoteose e metade estava entrando no box. Ali foi o momento terrível de decepção, de desespero, porque um diretor de bateria retornou e deu a voz de comando de meia-volta-volver. E o outro, que era o presidente, na época o Sílvio, não percebeu, e a bateria foi dividindo: a metade que olhou aquele mestre de bateria que passou pelo meio da bateria avisando que tinha que voltar, o cara que ocasionou o problema sério, e ali nós tomamos oito e meio. O jurado, que foi o Téo Lima, foi muito, muito, muito bom. Ele foi ótimo ali, ele que é tão rigoroso, foi ótimo naquele momento, a gente teria tomado cinco ali, então, ele deu oito e meio. Viemos tirando dez, dez, dez e oito e meio. Foi o pior momento da bateria do Império Serrano, que calhou na demissão do Mestre Sílvio logo após. 6. Rachel retorna à pergunta - A pergunta dele, a primeira parte - qual é o momento mais perigoso do desfile - eu acho interessante. R. O momento mais perigoso do desfile, pra bateria do Império Serrano e para as demais, é o momento de início de cadência. A gente tem que determinar, saindo daqui já pronto, a velocidade. Geralmente as baterias entram muito quentes, até demais e dá o contraste com o puxador. Então, ali, sempre no primeiro box, que é um setor perigoso, que tem pouco som pra gente no momento e é um box apertado, bem enxutinho, a gente ali tem o receio do erro. Mas graças a Deus ali, usando a experiência que a gente está lidando no dia-a-dia, a gente vai lapidando ali. Mas é o setor pior que nós temos ali no momento pro desfile é o setor do primeiro recuo. A gente fala recuo, fala box, fala curral... é o primeiro setor que a gente está sempre apreensivo. Portanto, com o cavaquinista, com o violinista, com o cara que toca o surdo, o marcador do palco, e os demais componentes da bateria, ali é o momento que nós temos que ter frieza de determinar aquilo que foi feito naqueles minutos de ensaio. Depois que começa é fácil, até no final a gente tem como lidar com os problemas. Hoje existem estas paradinhas. A paradinha do Império é utilizada para isto, é um termo tático, técnico, a gente só utiliza ela quando a bateria está mal, pra retomar. As vezes, o jurado não percebeu, mas a gente sabe que não está legal, a gente faz umas duas paradinhas ou uma, pra retomar a cadência normal, do início, então, dali a gente vai embora. Mas o primeiro box é o pior que tem. Até este ano de 2003 agora, que nós tivemos que fazer duas paradinhas pra segurar, segurar o atravessamento que vinha iniciando devido ao som que vinha falhando e o carro de som estava longe, e devido à harmonia, que deixou a bateria do Império evoluir sozinha sem parar a cabeça da escola. Faltou som, estourou o som atrás. A bateria começou a ratear, estava num bom momento. Eu tive que ir lá atrás pra mandar alguns parar de tocar e deixar só a quantidade menor. Eram doze e só oito tocando porque doze estava dando... não estava conseguindo ter nitidez no retorno. Senti esta falta do retorno no som. Então, foi o momento ruim ali. 7. Luciano pergunta - Para acabar com esse problema da bateria entrar com muito vigor, como você fala, muito lá no alto, não seria melhor voltar àquela época do esquenta? R. Exatamente. Ali tira a inibição da bateria. Nós pleiteamos isso à nossa diretoria este ano, mas ela abdicou de ter o esquenta, que pra bateria é excelente, pra escola também, pro público também é excelente porque ele aquece tanto o público do Setor 1, que é o termômetro da Avenida, como os componentes da escola, da Presidente Vargas até os Correios ou até o Balança Mas Não Cai. Então, a bateria do Império ou a bateria de qualquer outra escola tem aquecimento. Se a gente parar correto a gente está bem, se a gente parar errado ali a gente vai ver também. O momento de esquenta da bateria hoje é fundamental, só que este ano nós abdicamos disto, não usufruímos deste momento. E de repente foi aí que deu um deslize na bateria durante o som, porque a bateria do Império Serrano está acostumada a tocar sem som, sem muito som, e esse ano faltou som pra gente e tranqüilamente se a gente soubesse utilizar este esquenta, pra afinação do instrumento e depois que pára a gente vai e dá uma passadinha no instrumento, uma afinação, uma conferida depois o pessoal que é pra mudar, botar na velocidade, é ali que a gente vê o momento. Devido a esta falta de esquenta que este ano não teve pra gente faltou muita coisa. A gente entrou frio, entrou sem aquela motivação. A gente pediu tanto e aí chegou na hora mudou. Dois dias antes do desfile vieram aqui e mudaram. A gente ficou muito triste mas... A gente queria o Bum Bum pra cantar, animar o público. A gente pede um samba pra animar o público. A bateria precisa de uma passada sem bateria e duas passadas com bateria pra esquentar, pra gente acertar ali a nitidez de cada naipe, vai perguntar se está bem afinado, tá alto, tá baixo, pra gente ter a entrada correta do samba, do hino do desfile do ano corrente. Eu acho que o primordial que tem é isto: é o esquenta, que tem um trabalho de show de bateria antes também pra gente desinibir a bateria, os novatos que estão galgando o desfile, que é uma emoção para os novatos, tremenda. Vejo ritmistas novatos chorando, os antigos sempre choram também, porque não agüentam. Eu creio que este ano a gente vai fazer um esquenta muito mais dinâmico, um trabalho mais pro público e depois iniciar o trabalho à vera que é o trabalho profissional, que é o samba deste ano, que é o Aquarela. 8. Luciano pergunta - No nosso site tem uma enquete sobre qual é o samba que nós deveríamos tocar no esquenta. Na sua preferência qual é o samba que deveria tocar no esquenta do Império Serrano? R. São tantos sambas... Aqui no Império Serrano só tem obras-primas, que a gente fica até tonto. Somos privilegiados. O Império é privilegiado de ter estas obras-primas: é Bum Bum, é Aquarela mesmo, que vai ser um prêmio pra gente que tem 22 anos de bateria, eu nem era nascido nesta época. Temos Betinho, que é maravilhoso, temos Mãe Baiana, Foi Malandro É com Nei Viana, que marcou: a cadência que o Império passou foi um dos momentos mais lindos do desfile da bateria do Império Serrano, foi com o Foi Malandro É. Nei Viana sozinho interpretando o samba na Avenida. Foi boicotado pelos companheiros que vinham como segunda voz e salvou o samba. Ele cantou sozinho. Foi um momento maravilhoso. Tem sambas lindos que eu posso citar aqui: Eu Quero é um enredo que marcou época também, marcou situações críticas do Brasil que a gente vive. Várias obras-primas. Então, o que vier pra gente será bom. Mas o preferido mesmo pra mim é o Bum Bum. Foi o ano que eu desfilei pela primeira vez na bateria como adulto e ganhei meu título. 9. Marcelo Akerman pergunta - Havia uma opinião no site de tocar como esquenta Aquarela do Brasil do Ary Barroso, porque vai ter uma homenagem a ele e Aquarela do Brasil é o segundo hino brasileiro. A bateria é capaz de tocar este samba? R. Já está ensaiado. Já ensaiamos ele no mês retrasado aqui, até o canto, e fazemos muita coisa com ele, partituras direitinho dentro da música. Se deixar a gente tem que preparar o Nego pra cantar e a gente brinca. Sem feijão com arroz, vou mostrar muito mais recursos no samba: paradas, convenções, bossas e subindo numa cadência bem suave. A gente está preparado pra isto. Se vier a gente traça. 10. Pergunta de Luciano Vargem (Rio de Janeiro - RJ) - Como você sabe, saio na bateria do Império desde 1989, trazido pelos mestres Aimorecy e Tião Gato. E você? Quando foi que você começou, por quem você foi trazido e como? E em quem você se espelha para dirigir a nossa bateria? R. Eu cheguei no Império Serrano em 81, trazido, puxado, seqüestrado pelo Mestre Sílvio e pelo nosso ex-intérprete Pedrinho Colibri. A mãe dele trabalhava na quadra, na limpeza, tomava conta do banheiro feminino. A gente morava em Vaz Lobo, na Lima Drumond. A bateria mirim do Império estava sendo recriada aquele ano por Natalino Costa, nosso mestre de bateria naquela época, até 83. Ele recriou aquela bateria com garotos que estivessem estudando, tivessem de doze a quinze anos. Meu pai, que era imperiano, não queria, porque a bateria do Império tinha uma fama muito ruim. Mas o Pedrinho me trouxe fugido, às terças-feiras, pra eu ensaiar aqui à noite, eu e meu amigo Dirnei, que hoje é evangélico, tocava muito a primeira também. A gente tocava no bloco Vai e Vem na Vila Emília, mais por prazer, e foi nesse ano, com treze anos, que eu ingressei na bateria mirim do Império Serrano. Esse ano nós não desfilamos, passamos um ano como mirim, mas no ano seguinte, 82, no Bum Bum, nós fomos promovidos a ritmistas adultos pelo Mestre Sílvio, pelo Nelson, irmão do Sílvio, Natalino Costa, Birão, Tuninho, Américo, Seu Valter, era um time muito bom. Nós fomos promovidos naquela época, eu, Faísca e vários colegas mais que desfilavam pela Império Serrano. Foi o primeiro ano de desfile como adulto e primeiro título de carnaval. Então, fui trazido pelo Mestre Sílvio, que hoje está na Velha Guarda, e o amigo Pedrinho Colibri, que hoje é um cantor de samba, um puxador, um intérprete maravilhoso, que hoje não está mais na escola, está em São Paulo, me parece. Também, a gente tem uma imagem de vários mestres de bateria, tem que se espelhar em alguém, tem que idolatrar alguém, então, eu, como imperiano, ouvi falar muito dele também, diz que ele foi imperiano também: eu me espelho muito no Mestre Marçal, que deu oportunidade pra eu gravar, participar do LP A Super Bateria do Mestre Marçal, eu novinho tocando naquela bateria que tinha Índio, tinha Patinete, tinha o falecido Rodnei, Sidnei, só tinha fera... Mestre Sílvio com Mulato, com Mussum, esses caras que a gente não pode esquecer no mundo do samba, em termos de ritmo. Então, a gente tem um espelho no Mestre Marçal, na sua postura, na sua disciplina, nos seus demais auxiliares, nos seus demais comandados, esse é o espelho pra mim, o cara que não gostava de paradinhas, era um cara que gostava da cadência reta, firme, sem brincadeira. Eu acho que marcou pra mim muito o Mestre Marçal, o falecido Mestre Marçal, que Deus o tenha em bom lugar. 11. Pergunta de Luciano Vargem (Rio de Janeiro - RJ) - Você poderia listar os títulos conquistados pela bateria e explicar o porquê do nome Tabajara do Samba? R. A Tabajara do Samba foi apelidada pelo Fernando Pamplona, no carnaval de 82. Há gente que fala que mais anteriormente existia uma Tabajara, mas não existia, nós já conversamos sobre isto. Apelidada por Fernando Pamplona em 82, no Bum Bum. A bateria do Império Serrano fez um primor de desfile, um sol de quarenta graus, entramos quase meio-dia. Então, daí partiu o apelido, o batismo do Fernando Pamplona de Tabajara do Samba. Temos a Furiosa, que é a Portela. Temos a Princesinha, que é a Caprichosos. Temos outras baterias que têm outros apelidos, tem a Guerreira. Então, a gente está aqui privando disto e sabendo que existem brigas, a Tijuca fala que é Tabajara também. A Portela também julga. Mas a Tabajara é nossa, a gente foi apelidado pelo Fernando Pamplona. Foi na entrega do troféu Estandarte de Ouro, em 82, no jornal O Globo, a gente recebeu numa parte descoberta, externa da rua, lá na Rua Irineu Marinho. Então, o Fernando Pamplona, de viva voz, no seu microfone, apelidou a bateria e batizou naquele momento os ritmistas do Império Serrano como Tabajara do Samba, e até hoje ficou e vai ficar e a gente vai levando isso aí, pela sua cadência, pela sua sustentação de ritmo que é na Avenida. Ele fez um paralelo entre a bateria do Império e a orquestra Tabajara, que toca de tudo, uma excelente orquestra. Os títulos que nós já conquistamos: temos seis títulos do jornal O Globo, o Troféu Estandarte de Ouro, que foram seis, graças a Deus, seis. Temos dois da extinta rede Manchete, que era o Papa Tudo. Temos Rádio Nacional, dois. Temos Rádio Roquete Pinto. Temos, que era anteriormente, a radio Nacional. Temos a Rádio Tupi, troféu Rádio Tupi. Temos o Torneio de Melhor Bateria do Rio de Janeiro, conquistado na Portela, no dia de São Sebastião, na quadra da Portela, nós ganhamos esse torneio lá dentro, no ano de 86, um torneio de bateria que teve entre Portela, Império Serrano, Mocidade, Imperatriz Leopoldinense, Salgueiro e União da Ilha. Então, nós conquistamos este título lá dentro. Levamos cem homens e fizemos um grande show com os agogôs, com os repiniques que nós tínhamos, o Jorge Canhoto, o Sílvio, essas pessoas que tocavam o repinique com a mão, fazendo o show com a mão, solo com a mão maravilhoso. Então, essa bateria do Império Serrano tem nos dado estes inúmeros títulos, e outros que eu não me lembro no momento. Temos um troféu também da Contemporânea, que foi uma representante de São Paulo que nos deu esse prêmio em 82, como melhor bateria. 12. Pergunta de Marcelo Akerman (Rio de Janeiro - RJ) - Qual o mestre de bateria atual que você admira mais? R. Hoje, por acompanhar ele de longa data, nós temos um fera aí que a gente esquece. Nós temos um cara formidável como pessoa, humilde, gentil, que onde ele estiver vem falar com a gente, conversa, orienta tecnicamente, profissionalmente e mostra a modernidade das baterias hoje. É o Odilon, Mestre Odilon. Pra gente, que acompanhou ele como criador das bossas, na União da Ilha, foi ele que, junto com o Carioca do Repique, que saiu aqui muito tempo no Império com a gente também, foram os homens que fizeram a ousadia das paradinhas. Tem a Mocidade e tal, com Mestre André, mas o Odilon inovou, inovou as bossas, inovou as paradinhas, colocou o grau de dificuldade maior nas bossas em partitura musical, que é difícil, só quem entende mesmo que pode... Então, pra mim, hoje, o atual, com trinta anos de carreira hoje, apesar de nós termos Louro, termos Ciça, mas o Odilon é muito gente, é muito pessoa, então ele mereceria que todos os diretores de bateria fizessem uma placa pra ele, que ele merece, esse cara tem muita bagagem mesmo. 13. Pergunta de Marcelo Akerman (Rio de Janeiro - RJ) - Tenho acompanhado os ensaios de quinta-feira e tenho notado várias bossas e paradinhas maravilhosas. Fora isto existe alguma surpresa a mais para o desfile de 2004? R. Bom, surpresa sempre haverá. A gente está inovando a cara da bateria do Império Serrano com recursos de dificuldades de bossa, junto com Dinho, com Gilmar, com Felipe, com André, com Chiquinho, com meu secretário Bethoven, amigo também, gente finíssima, este trabalho que está sendo feito é pra mostrar que nós temos capacidade de melhorar de qualidade e futuramente gravar um CD. Tocamos timbalada, funk, afro-reggae... Hoje, a bateria do Império Serrano está em todos os tipos de ritmos. Então, hoje, está bem situado, bem modernizado, modernizando alguns companheiros que estão ultrapassados, na reciclagem, como falei anteriormente. Então, muito trabalho está sendo uma cara mais nova. O povo hoje está vindo pra quadra pra ver paradinha, ver bossa, sacudir... o pessoal não quer ver o samba reto, não quer ver a cadência. Me desculpe, a gente não quer humilhar nem espezinhar ninguém, mas hoje nós temos que modernizar, mostrar que nós somos músicos de percussão pesada no samba e também não somos bobos, dispomos aí hoje de um trabalho muito didático, deste trabalho de fazer bossa. O recurso de dificuldade pra gente sempre é melhor, pra gente ver a qualidade do ritmista que nós temos. Então, hoje o Império Serrano está com um grupo muito forte de duzentos homens aí na mão. Levantou a mão, sinalização de mudo: x é uma bossa, um dedo é outra, zero é outra, zero quatro, zero cinco, zero seis... são várias bossas. Nós temos onze, doze bossas aí que podemos utilizar no samba. O samba hoje do Império não pede bossa, é um samba muito artesanal, é um samba muito antigo, é um samba muito cadenciado, e a gente está utilizando o menos bossa possível neste samba, mas é um recurso que nós temos que ter no bolso, pra caso de acidente na Avenida Marquês de Sapucaí. 14. Pergunta de Carlos Pereira (Rio de Janeiro - RJ) - Observo que o som dos agogôs foi diminuído na bateria da escola, voltando uma tendência que eu identificava anos atrás, que eram as caixas mais fortes. Ouço algumas pessoas comentarem que gostavam mais dos agogôs e que eles eram uma marca registrada da escola. Eu, particularmente, acho os agogôs lindos, mas prefiro a tocada forte e firme das caixas. Gostaria que o mestre divagasse um pouco sobre este assunto. R. Anteriormente, quando foi criado o agogô, pelo Edgar do Agogô, a gente brincava muito com ele que a bateria do Império não era só agogô: teve um ano que viemos com cinqüenta agogôs tocando na Marquês de Sapucaí! A gente tem uma característica muito forte, que é o nosso tarol, que é tocado numa batida rufada, não marcheada, em outras baterias são batidas marcheadas, mas aqui no Império prevalece o rufado, a batida corrida, não presa, nem marcheada, nem batida pausada. A gente bate uma batida rufada, reta, o tempo todo sustentando as terceiras do Império Serrano, que tocam em cima. Então, a gente está voltando de novo com este trabalho didático, das caixas, que é a cara do Império Serrano. Outras baterias têm agogô sim, que hoje se expandiu pra outras baterias, mas aqui no Império Serrano nós tivemos uma quantidade maior e com um padrão mais trabalhado, um padrão mais dinâmico, e retomamos de novo com o Sidoca, que é um dos sobrinhos do Edgar do Agogô, que retomou o comando do agogô. O pessoal da antiga que saía com a gente há longo tempo e parou, porque uns casaram, outros trabalham, outros com afazeres diferentes, que a gente não sabe o que aconteceu, está retornando de novo à escola, pediram pra retornar e nós abrimos a exceção e isso fortaleceu o agogô. Mas o tarol do Império também, fortaleceu o rufado, padronizar por igual, são noventa homens e noventa homens tocando igual, ou mais ou menos oitenta tocando igual, é uma coisa muito linda, muito bonita de se ouvir. E tudo hoje aqui no Império é padronizado, as primeiras, segundas e terceiras, as caixas, os repiniques, que são hoje quase obsoletos em bateria, qualquer bateria vem com oito repiniqueiros no máximo, e são os que fazem mais bossas, homens de confiança que dão entrada, que dão a retomada de uma bossa. Então, hoje a bateria do Império Serrano tem a cara do tarol, que é o rufado, tem a sua terceira, que é suingada, é um corte estilo macumba, tem um som de "tá tudo muito bom, tá tudo muito bom, tá tudo muito bom" o corte e o recorte é feito assim. O tarol do Império também é batido em cima das terceiras, que é o tarol "tá tudo muito bom, tá tudo muito bom", a batida é essa, a música é essa, e a primeira é cadenciada e a segunda também cadenciada, a gente não corre aqui, a gente tem estilo cadenciado. Já o tamborim floreado, muitos falam carreteiro em outras baterias, mas aqui no Império a gente fala floreado, os coroas tocam floreando, cada um tem três bastões de fibra, então eles floreiam. Então, a cara da bateria do Império Serrano, pros antigos e pros novatos, não pode mudar. Resgatamos de novo o tarol e o agogô, somando tudo vai dar certo. A gente está esperando que dê tudo certo, com tranqüilidade, com seriedade e paz, nada de confusão. 15. Pergunta de Carlos Pereira (Rio de Janeiro - RJ) - Um ou dois jurados não deram nota máxima para a nossa bateria no ano passado. Gostaria de saber se você concordou com estas notas e gostaria que as comentasse. R. Do total foram três jurados esse ano de 2003. Foi correto, a gente fala, a gente chora aqui pelo cantinho, mas a gente sabe... O Ivan Paulo deu dez num momento em que a bateria do Império estava excelente na sua cadência, num momento bom. O segundo jurado presenciou um declínio rítmico da parte traseira da bateria, foi a falta de som, ele não observou que a escola estava sem som, o carro de som nosso estava com a frente sem retorno, os pirulitos da pista estavam queimados até o meio da pista, tinham estourado, então a bateria do Império parou à frente dele, como ela fez em todo jurado, virou pra frente do jurado e no momento de seguir em frente ela teve um deslize rítmico lá atrás. Achei a nota válida. O terceiro jurado presenciou um momento da bateria excelente na cadência, como ele mesmo disse, o Téo Lima, ele presenciou esse fato e presenciou logo após a evolução que nos prejudicou. A evolução que foi tão comentada no ano anterior, 2002, esse ano de 2003 nós fizemos um grau de dificuldade maior e no momento da evolução da bateria a escola acelerou os demais componentes e deixou a bateria sozinha na pista. Então, como a gente tem que tomar uma medida serena, não pode nem gritar no momento, tem que ficar fingindo que está tudo bem, eu vim adiantando a bateria, para tirar aquele espaço que os demais componentes, junto com a harmonia, deixaram para a bateria cobrir erradamente, porque o ensaio não foi aquilo, no ensaio foi uma coisa mais compacta. Então, dali o Téo Lima, por sua vez, viu a bateria do Império Serrano ter um declínio de cadência. Ele afirmou, corretamente, que a bateria do Império Serrano, com medo de errar, com a apreensão de atravessar, alguns ritmistas tiraram a mão de suas peças, quer dizer, a parte do meio pra trás, a parte mais fundamental, que era perto do carro do som, falhou. Eles diminuíram a intensidade da batida e foi ali que ele observou que a cadência do Império tinha diminuído. Foi muito honesto, porque ali, realmente, a bateria atravessou. Ela atravessou não no todo, mas atravessou, e ali ele foi até gente boa, ele deu nove pra gente. O último jurado, o Mário Jorge, deu 9,9, perto de dez, ele poderia ter dado dez. As restrições dele são ao nosso tamborim. O tamborim do Império tem know how pra todas as baterias, as pessoas vêm aqui apanhar, pra sair na Imperatriz, sair na Beija-Flor, sair no Salgueiro, vêm pedir, pedem, a gente cede os ritmistas de qualidade pra eles lá, pra fortalecer eles lá, a gente sabe que o tamborim do Império, hoje no comando do Mestre Dinho, têm know how, têm uma bagagem enorme de criatividade. Ele criticou a gente no tamborim: "bateria com boa cadência mas com um ligeiro desencontro rítmico na parte dianteira de seu tamborim". Tudo bem. A gente sabe que tem que melhorar, tem que trabalhar mais a fundo pra chegar lá ano que vem e fazer um trabalho melhor. Assumo a responsabilidade também, junto com a escola, mas é exagero dizer que a bateria atravessou, rateou, teve estes problemas todos. Espero que ano que vem não tenha. 16. Pergunta de Carlos Pereira (Rio de Janeiro - RJ) - Gostaria de saber como é que você identificou o seu talento para bateria e se você sempre quis ser mestre de bateria? R. Eu nunca sonhei ser mestre de bateria, pôxa! Essa é que foi uma fatalidade. Eu fui promovido a diretor de bateria em 88, pelo Mestre Tuninho, filho do falecido Mestre Fuleiro. A bateria tinha ido à França, quando retornamos da França ele se sentiu feliz, por eu ter feito lá um trabalho bom, disciplinado e me promoveu a diretor de bateria mirim, junto com o Faísca. Então, exerci na Avenida a função, foi mais um tipo de cargo de confiança que eles me deram, por participar um tempo da manutenção da bateria, com o falecido Mestre Aimorecy, que trabalhava aqui com o Bira Cinzento, encourando, afinando, pintando, reformando os instrumentos que tínhamos aqui com defeito, com problemas técnicos. Este foi o prêmio que eu ganhei do atual amigo, que é o nosso padrinho de bateria, o Tuninho Fuleiro. E a gente em 92 foi convidado para assumir a bateria também junto com o Mestre Américo, que morreu também, mestre de bateria em 91-92. Em 93 foi o Edgar do Agogô, aí depois voltei a ser ritmista e obtive um convite do falecido Mestre Macarrão, que conversou comigo, me fez voltar de novo a comandar a bateria do Império, a participar, que é uma coisa que a gente sempre tinha medo, porque a bateria do Império Serrano pra lidar não era mole não. Não era brincadeira mudar aquela bateria. Então, fui convidado pelo Mestre Macarrão, eu, André, na época, João, o falecido Paulinho, e outros nomes que a gente não lembra aqui no momento. Então, retomei, mas nunca sonhei em ser mestre de bateria do Império, sempre sonhei em ajudar, colaborar, participar aqui, acertar algumas coisas que a gente tinha que acertar. Hoje o Império Serrano pode receber qualquer tipo de classe social aqui na escola e a bateria do Império Serrano tinha esta parte que não deixava as pessoas chegarem até ela. Com a morte do amigo Macarrão, e devido à nossa presidente da escola, D. Neide, um convite dela irrecusável, de levar este trabalho com seriedade, aceitei assumir a bateria como coordenador, era uma comissão. Mas houve o problema da comissão não desenvolver o trabalho com a bateria, problemas extra-bateria, então ela resolveu me promover à frente da bateria. Mas eu não me sinto marrento, nem sapato alto por isso não, sou Atila mesmo, aqui eu peço ao pessoal pra me chamar de Átila, todo mundo me chama de Átila. Mestre é pra Odilon, que merece ser chamado, Mestre Louro, Mestre Ciça, estes merecem ser chamados de mestres, porque estão há muito mais tempo do que eu em comando, à frente de uma bateria. Eu estou aí, há um ano, na frente da bateria! Numa bateria deste tipo, da envergadura do Império Serrano, é um privilégio, uma satisfação, é um currículo que a gente vai levar. Eu posso comandar qualquer bateria agora. Posso sair daqui e comandar a Tradição, Portela... qualquer uma. Não vai haver isso, nunca eu vou fazer isso, mas convite agora vai ter, já houve, mas a gente taí, graças a Deus, com o pé no chão e na humildade. No Império Serrano eu vou ficar por amor e de coração, e pela D. Neide, que ela merece. 17. Pergunta de Carlos Pereira (Rio de Janeiro - RJ) - Gostaria que você comentasse como é feito na concentração e nas horas que antecedem o desfile o controle sobre os ritmistas, para se evitarem os excessos com bebidas, que são tão prejudiciais ao desempenho da bateria? R. Antigamente a gente entregava os chapéus na Marquês de Sapucaí, e por quê? Cada chapéu era entregue um a um, frente a frente com o ritmista e aí a gente conferia se o cara estava com excesso de bebida ou não. Hoje em dia, a gente aluga um local mais próximo da Sapucaí, faz um trabalho de fortalecimento natural, bebida, água, muita água, muito refrigerante: bebida alcóolica só após o desfile. Muitos chegam já alcoolizados, aí a gente chama pro cantinho, conversa, pede pra deitar, pra descansar, pra relaxar. Este ano foi feito isto com tranqüilidade. Teve cinco pessoas que não desfilaram porque estavam com excesso. Estavam com a roupa rasgada, suja... O trabalho é feito tête à tête. Eu entrego as macetas, as baquetas, os talabartes um a um. Chamo os naipes: "Atenção, gente! Agora o naipe de tarol". Então, os oitenta vêm à minha frente. Eu apanho as baquetas, dou em mãos. Olho pra eles, converso com eles. É assim que é feita a triagem pra ter um bom desempenho na Avenida. Se tiver com excesso não vai entrar, não entra, não desfila. Esse trabalho tem que ser muito tranqüilo, na educação, com vários ritmistas, porque muitos deles não aceitam isto. Muitas vezes entram com a ampola ligada no sangue pra tirar a tensão e não é isto que a gente quer. A gente quer que eles entrem o mais serenos possível, pra ter a nitidez do que vai ter que ser feito, a sinalização é importante. A sinalização da bateria do Império é importante, a gente faz sinalização de "X", uma mão aberta, uma mão fechada, esta é a sinalização que nós utilizamos. Então, tem que estar atento a esta sinalização pra não ocorrer uma tragédia na Marquês de Sapucaí. Então, a triagem é feita na concentração. A gente concentra a bateria cinco ou seis horas antes do desfile. Então, este é o momento que a gente tem pra se tranqüilizar e tranqüilizar os demais componentes. 18. Pergunta de Rachel Valença (Rio de Janeiro - RJ) - Segundo especialistas, a diferenciação das diversas baterias se faz principalmente pela afinação dos instrumentos. Na bateria do Império Serrano, quem encoura as peças e quem decide sobre a afinação: é você pessoalmente, algum outro diretor ou é a equipe? R. Hoje no Império Serrano, na direção de bateria, a gente chama de departamento de ritmo, a gente tem um trabalho muito em conjunto. Então, a gente tem diretor de cada setor. Encouramento tem o nosso diretor de manutenção, que é o Chiquinho, Francisco Emílio. Então, ele faz o trabalho de encouramento junto comigo e o Rogerinho, que é um amigo nosso auxiliar também. Quanto à afinação, os surdos pesados, que são primeira e segunda, é com a minha pessoa também, porque aqui nós temos uma religião, de não deixar muito agudo a primeira e não deixar muito grave a segunda. Então, a gente faz na afinação as primeiras serem altas e a segunda muito mais baixa do que a primeira. As terceiras nossas ficam no meio termo, a gente faz a minha afinação, pra ter um rufado mais amplo. As caixas, que é o tarol, a gente utiliza as cordas bem frouxas, não muito esticadas, porque aqui a gente não bate marcheado, a gente quer o rufado, a gente põe mais larguinha. Os nylons altos também, não muito esticados, pra não se tornar uma batida marcheada e ter a nitidez de tirar o rufado com menos força. Os repiniques nossos são bem agudos. Temos o Tico, o Pacheco, o Cláudio, o China, o Ratinho, o Sérgio e Célio também. Temos estes repiniqueiros que utilizam a batida igual, parecida não, é igual mesmo, na entrada, na subida, na bossa... então, a gente utiliza muito este tipo de afinação no repinique. Na primeira alta, segunda baixa, na terceira meio termo e o nosso tarol bem alto e as cordas bem frouxinhas pra rufar com tranqüilidade. Então, esta é a afinação do Império Serrano. 19. Pergunta de Rachel Valença (Rio de Janeiro - RJ) - Tendo o privilégio de ser ritmista do Império Serrano desde 94, observo que a cada ano aumenta o número de pessoas interessadas em sair em bateria. Como se resolve este problema? Quais os critérios de admissão de novos ritmistas e que pressões externas sofre o presidente da bateria para a escalação? R. Gente, isso é um pepino terrível: vem gente da zona sul, vem gente de outro estado... Tem um rapaz do tamborim que chega aqui, de São Paulo, ele vem de São Paulo, pega um ônibus, salta no Rio, vem ensaiar das nove até as dez e meia, e depois onze e meia ele está de novo de volta pra São Paulo. Ele é um louco, louco mesmo. Tenho vários, que moram aqui no interior do Estado do Rio, moram em Araruama, moram em Santa Cruz, moram em Angra dos Reis... Tem muito companheiros que vêm de longe e não medem esforços para estar na bateria do Império Serrano. Hoje, nós temos vários tipos de classes sociais, com este tipo de aquisição o trabalho é feito a partir de maio, a gente faz uma renovação anualmente, qualquer coisa, qualquer trabalho, qualquer administração tem que ter uma renovação, então, a gente trabalha com renovação e com qualidade. A gente aceita inscrição, faz o ensinamento básico na sala de aula com os demais diretores de bateria. A gente faz com os demais companheiros, a gente utiliza a afinação. O encouramento pros novatos, depois passamos pro tarol, repinique, primeira, segunda e terceira, depois dali a gente vai escolher o naipe que eles se sentiram melhor, e dali a gente escolhe a longo prazo. Primordial nisto tudo é a pontualidade e a freqüência. A gente quer que pelo menos os ritmistas tenham mais ou menos uns doze ensaios, de doze a dezesseis ensaios seguidos, pra gente não ter problemas de passar um dia uma bossa e outro dia que ele não vier, ele esquecer, ele falar que não sabe. Então, a gente quer que todos tenham o máximo de presença, de doze a dezesseis ensaios consecutivos ao ano até o desfile. Então, a prioridade que nós utilizamos é esta: presença, a qualidade de cada um, que hoje está sendo feita com tranqüilidade. Muitos são bateristas de bandas de rock, que pedem pra tocar tarol, tem muitos aí. Tem universitários que faltam faculdade pra estar aí também. Então, a gente está utilizando educação. Aqui é uma escola de samba, o Império Serrano é uma escola, então a gente está sempre fazendo um trabalho didático, com os ritmistas que estão chegando e os que estão saindo também. Os que estão saindo a gente utiliza pra fazer a parte de ensinamento. Muitos se prontificam a ajudar e colaborar. Então, o trabalho é assim. Com a assiduidade deles durante este tempo todo de ensaio, a gente avalia quem vai poder desfilar ou não. Aí depende muito deles, deles mesmos, somente deles. 20. Pergunta de Rachel Valença (Rio de Janeiro - RJ) - Aquarela Brasileira é de 1964, época em que o andamento do samba de enredo era bem diferente de hoje, muito mais lento. É claro que este andamento precisa ser atualizado. Como tem sido esse processo de adaptação entre bateria e puxador para que o samba fique moderno sem perder sua beleza melodiosa? R. Para este samba maravilhoso do Silas, a bateria do Império já tocava há longo tempo aqui na quadra. A gente tem uma adaptação muito boa com este samba. Porém, pro público hoje, a cadência antiga não vai afetar nem vai atrapalhar, mas a gente precisa colocar e acompanhar a modernidade do samba nas suas gravações, na Avenida. A gente está fazendo um trabalho de cadência um pouco mais acelerada do que a daquele ano. Hoje, as terceiras do Império recortam dentro da parte que tem que ser evoluída. O samba não vai ter paradinhas em excesso. Ele vai trabalhar numa cadência mais rápida, um recorte mais na partitura do samba, da música, com partes certas de subidas e partes certas de descidas, tamborim com subidas menos que os outros sambas normais recentes. A gente vai utilizar duas subidas de tamborim pra não ter problemas. Carrilha de três que nós fizemos na cabeça do samba vai ser utilizada só no momento que a gente for pensar em fazer. Então, hoje, a gente está fazendo um trabalho muito mais pro samba moderno. A gente está botando a bateria pra puxar mais, correr mais na frente, com as terceiras recortando dentro do samba, da música, da parte certa, não evoluindo demais, em excesso. As cadências, da primeira e segunda, mais aceleradas, mas com tranqüilidade, mas mais rápidas que os outros anos anteriores e tá indo bem, com o Nego puxando tá indo bem. A melhor coisa do mundo foi ter chegado o Nego para interpretar este samba. Então, está dando um casamento muito bom, tá indo muito bem. A gente está lapidando. É um trabalho de modernidade, modernização pra bateria e pro samba. Então, a gente está querendo melhorar muito, muito mesmo, esse samba com a bateria mas em outro estilo, mais rápido. Então, estamos conseguindo devagarzinho, não rápido demais. Aqui, a gente tem que ouvir as terceiras e as caixas do Império porque senão a gente é crucificado pelos companheiros. 21. Pergunta de Rachel Valença (Rio de Janeiro - RJ) - Há duas correntes entre os especialistas em bateria: uma afirma que a função primordial da bateria é sustentar a cadência do samba, sem alteração do andamento ao longo do desfile. A outra defende a necessidade de inovar com "paradinhas" e convenções que enchem os olhos (ou os ouvidos) do público mais leigo. Em que grupo você se situa? R. Eu me situo no estilo Mestre Marçal mesmo. O Império Serrano depois dos anos em que foram utilizadas as paradinhas, que não era nossa característica, a gente vem tomando umas notas não convincentes. O último ano em que nós galgamos uma nota máxima, no grupo especial, foi com o falecido Mestre Tião Fuleiro, Tião Gato, tiramos quarenta. Logo após viemos no ano seguinte com o Mestre Sílvio, no comando com o Mestre Tuninho, utilizando as paradinhas e dali nunca mais tiramos a nota máxima. Então, este ano, a minha mente foi sempre retomar este andamento, pra sustentar o samba, a gente não quer aparecer, a gente quer sustentar, fazer o estilo Império Serrano, que todo mundo comenta, Fernando Pamplona e vários papas do samba. A bateria do Império Serrano é uma bateria cadenciada, suingada. Então, nós temos que prevalecer este ritmo. As paradinhas nós precisamos pra fazer show, pra fazer o público suspirar, gritar de alegria. O Império Serrano hoje, como as demais baterias de celeiro, como Portela ou Mangueira, que são baterias de comunidade, tradicionais, está muito bobo com esse negócio de paradinha, muito leigo sobre isto. A paradinha para as demais escolas, como a Mocidade, União da Ilha, Viradouro, Grande Rio... essas sim, sempre utilizaram este tipo de recurso. Mas aqui no Império, como na Portela e na Mangueira, nós não podemos utilizar isto sem fugir às características, por quê? A gente foge à cadência, quebra o andamento do samba, prejudica a harmonia da escola e outras coisas mais que vem logo após. Os jurados, hoje, não aceitam isto. Eles aceitam que cada bateria tenha a sua cara, a sua característica, a sua cadência... Então, o Império Serrano vai esse ano se privar disto aí. Vai utilizar este tipo de estilo nosso e vamos ver o que vai dar. Minha cara é essa, minha cara é cadência, sustentação do samba e dos demais componentes da escola. Sustentar o samba reto, fazer caída normal, subida normal e fim de papo. Tamborim: com menos bossa possível, menos coreografia, mais floreado, menos convenções, pra não ter interferência dos jurados. A gente quer retomar aquilo que marcou época na bateria do Império Serrano: estilo reto, cadenciado e dando sustentação pra escola. 22. Pergunta de Rachel Valença (Rio de Janeiro - RJ) - Uma tendência contemporânea das baterias é em certos trechos de um samba fazer marcações influenciadas pelos ritmos do funk e do rap. Você é favorável a essas inovações ou se situa numa faixa mais conservadora de preservação estrita do ritmo do samba? R. Eu sou mais preservador do ritmo do samba. A gente exige isso no Império Serrano. O funk é um outro tipo de música, outro tipo de ritmo. A gente utiliza sim no caso de show, em teatro ou em outras apresentações que a gente faz por aí com a bateria. Mas pro desfile, pra samba a gente utiliza mais a parte mais preservadora, mais arcaica, que é a cadência, o ritmo reto, de sustentação pro samba. A gente aqui no Império Serrano aprendeu isto: "tá tudo muito bom, tá tudo muito bom, tá tudo muito bom, tá tudo muito bom". Esse é o ritmo do Império. A terceira do Império é assim, o recorte é assim, as caixas são assim, e a cadência da primeira e segunda não é nem rápida, nem lenta. Ela é muito diferente mesmo das demais, por causa da afinação. Então, a gente privilegia muito este tipo de ritmo, de cadência. A gravação em fita cassete desta entrevista está em poder do GRES Império Serrano e do acervo do site. A transcrição foi feita por Nilton Fernandes, a quem agradecemos a especial gentileza, e a edição do material é de Rachel Valença.
Entrevista com o Mestre Átila, realizada na sala da bateria, no Império Serrano, no dia 16 de setembro de 2003, terça-feira, das 20h30m às 22h00, por Rachel Valença, Luciano Vargem, Carlos Pereira, Marcelo Akerman e Nilton Fernandes, a partir de perguntas enviadas ao site.
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